Lectícia Cavalcanti
"Tendo, pois, Jesus nascido em Belém da Judéia no tempo do rei Herodes, eis que Magos vieram do Oriente a Jerusalém" (Mateus 2, 1). Esses magos diziam ter visto a mesma estrela, diferente de todas as outras. Por razão que não sabem explicar, a seguiram. Na esperança, talvez, de que viesse indicar o lugar em que nasceria o Salvador.
"Magos" é expressão que vem de Heródoto, "o Pai da História" (420 a.C.), referindo todos os que se interessavam pelas coisas do céu - hoje, equivalente a astrônomos e astrólogos. Com o passar do tempo, a tradição cristã os converteu em reis - "Os Reis Magos", assim ficaram conhecidos. Eram três. O europeu Melquior, com 40 anos. O africano Baltazar, com 30. O asiático Gaspar, com apenas 15.
A Belém chegaram em camelos "e prostrando-se diante do menino, o adoraram. Depois, abrindo seus tesouros, ofereceram-lhe presentes" (Mateus 2, 11-12). O primeiro presente foi "ouro" - mais precioso dos metais. O segundo, "incenso" - resina que, ao ser queimada, desprende um aroma agradável. Vem da Índia, extraída de árvore ("Boswellia") usada em sacrifícios religiosos. O terceiro, "mirra" - outra resina, extraída de árvore ("Commiphora") nativa da África, própria para a fabricação de perfumes; e, também, embalsamamentos - daí vindo o verbo "mirrar", com o sentido de definhar, de ganhar aparência de defunto.
Em 1164, os restos mortais dos Reis Magos foram transferidos para Colônia (Alemanha). As casas dessa região, ainda hoje, ostentam nos portais a inscrição CMB (Christus Mansionem Benedicat), "Cristo abençoe esta morada" - que, por semelhança às primeiras letras dos nomes dos Magos, muitos interpretam como sendo suas iniciais. O dia de homenagear esses Magos é hoje, 6 de janeiro, data que encerra o ciclo de Natal. "Dia de Reis", assim chamamos. Em alguns lugares, como na Espanha por exemplo, nessa data são distribuídos presentes - reproduzindo o gesto dos Reis magos.
Em Portugal se faz o "Bolo Rei" - bolo em forma de coroa, feito de massa levedada (massa de pão), com um brinde e uma fava dentro. Quem encontrar o brinde realizará seus desejos. Quem encontrar a fava, deverá comprar outro bolo-rei. Esse bolo, em verdade, nasceu na França, à época de Luis XIV - quando esse dia era celebrado na côrte. E ficou até registrado em quadro do pintor inglês Jean-Baptise Greuze, "Gâteau des Roi". Com a revolução francesa foi proibido. Mas os confeiteiros de Paris continuaram a fazê-lo, apenas trocando seu nome para "Gâteau des sans-cullottes".
A receita foi trazida a Portugal por Baltazar Rodrigues Castanheiro, em 1869 - quando ele inaugurou a Confeitaria Nacional, na rua da Betesga (que liga o Rossio à Praça da Figueira), em Lisboa. Logo fez grande sucesso, passando a freqüentar todas as mesas portuguesas, no Natal e no dia de Reis. Ao Brasil os primeiros bolos chegaram em São Paulo, na década de 60. Mas entre nós, apesar de já serem encontrados nas principais delicatéssens, ainda não fazem muito sucesso.
RECEITA
Bolo Rei (receita para dois bolos)
Ingredientes:
PARA A MASSA LEVEDADA
- 14 gr de fermento de padaria;
- 3 colheres de sopa de leite morno;
- 100 gr. de farinha de trigo;
PARA O BOLO
- 250 gr de farinha de trigo;
- 100 gr de massa levedada;
- 1 colher de sopa de sal;
- 4 ovos;
- Raspas da casca de um limão;
- 150 gr de açúcar;
- 100 gr de manteiga;
- 150 gr de frutas secas e cristalizadas (nozes, passa, ameixa, figo, cereja);
- 1 cálice de vinho do Porto;
- Farinha para amassar;
- 1 brinde;
- 1 fava;
Preparo:
- Faça a massa levedada - juntando todos os ingredientes e deixando fermentar por 4 horas. Reserve;
- Pique grosseiramente as frutas secas e cristalizadas. Deixe de molho no vinho do Porto. Reserve;
- Coloque a farinha em uma mesa. Faça buraco no centro. Coloque a massa levedada e amasse bem;
- Junte os ovos (um a um) em temperatura ambiente, as raspas de limão, o açúcar, a manteiga (anteriormente batida na batedeira até que fique bem cremosa). Misture tudo. A massa fica com consistência mole. Cubra e deixe descansar até o dia seguinte;
- Acrescente as frutas secas e cristalizadas. Divida a massa em duas partes. Dê, em cada uma delas, a forma de coroa (fazendo primeiro uma bola, e depois um buraco no meio), com mais ou menos 30 cm de diâmetro. Introduza o brinde e a fava. Deixe descansar, em lugar fechado, por 1 hora. Pincele com a gema (diluída em água);
- Asse em forno médio (180º). No meio do cozimento, decore com frutas cristalizadas e açúcar. Deixe no forno até que fique dourado;
Lectícia Cavalcanti coordena o caderno Sabores da Folha de Pernambuco, escreve na Revista Continente Multicultural e no site pe.360graus.
Essa blog traz artigos sobre educação e também outros assuntos relativos a cultura e ao lazer. "Ninguém ignora tudo. Ninguém sabe tudo.Todos nós sabemos alguma coisa.Todos nós ignoramos alguma coisa. Por isso aprendemos sempre."PAULO FREIRE
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