segunda-feira, 31 de dezembro de 2007

O enterro do "Não-consigo" (CHICK MOORMAN)

Esta história foi contada por Chick Moorman, e aconteceu numa escola primária do estado de Michigan, Estados Unidos.

Tomei um lugar vazio no fundo da sala e assisti. Todos os alunos estavam trabalhando numa tarefa, preenchendo uma folha de caderno com idéias e pensamentos.

Uma aluna de dez anos, mais próxima de mim, estava enchendo a folha de "não consigos".

"Não consigo fazer divisões longas com mais de três números." "Não consigo fazer com que a Debbie goste de mim."

Caminhei pela sala e notei que todos estavam escrevendo o que não conseguiam fazer. "Não consigo fazer dez flexões.", "Não consigo comer um biscoito só."

A esta altura, como a atividade despertara minha curiosidade, decidi verificar com a professora o que estava acontecendo e percebi que ela também estava ocupada escrevendo uma lista de "não consigos". Observando tudo, eu me perguntava por que estavam trabalhando com negativas, em vez de escrever frases positivas...

Os estudantes escreveram por mais dez minutos. A maioria encheu mais de uma página.

Depois de algum tempo os alunos dobraram as folhas ao meio e as colocaram numa caixa de sapatos, vazia, que estava sobre a mesa da professora.

Quando todos os alunos haviam colocado as folhas na caixa, Donna, a professora, acrescentou as suas, tampou a caixa, e saiu pela porta do corredor.

Os alunos a seguiram.

Logo à frente ela pegou uma pá. Depois seguiu para o pátio da escola. Ali começaram a cavar. Quando a escavação terminou, a caixa de "não consigos" foi depositada no fundo e rapidamente coberta com terra.

Trinta e uma crianças de dez e onze anos permaneceram de pé, em torno da sepultura recém cavada.

Donna então fez uma pequena oração: "Amados, que a expressão não consigo possa descansar em paz e que todos os presentes possam retomar suas vidas e ir em frente na sua ausência. Amém."

Ao escutar a oração entendi que aqueles alunos jamais esqueceriam a lição.

A atividade era simbólica: uma metáfora da vida. O "não consigo" estava enterrado para sempre.

Logo após, a sábia professora encaminhou os alunos de volta à classe e promoveu uma festa. A festa da libertação.

Depois disso, nas raras ocasiões em que um aluno se esquecia e dizia "não consigo", Donna simplesmente sorria e o aluno então se lembrava que "não consigo" estava morto e reformulava a frase.

Eu não era aluno de Donna. Ela era minha aluna. Ainda assim, naquele dia aprendi uma lição duradoura com ela. Agora, anos depois, sempre que ouço a frase "não consigo", vejo imagens daquele funeral da quarta série. Como os alunos, eu também me lembro de que "não consigo" está morto.

domingo, 30 de dezembro de 2007

TEMPO...



Quem teve a ideia de cortar o tempo em fatias,
a que se deu o nome de ano,
foi um indivíduo genial.
Industrializou a esperança
fazendo-a funcionar no limite da exaustão.

Doze meses dão para qualquer ser humano
se cansar e entregar os pontos.

Aí entra o milagre da renovação e tudo começa outra vez
com outro número e outra vontade de acreditar
que daqui para adiante vai ser diferente...

...Para você,
Desejo o sonho realizado.
O amor esperado.
A esperança renovada.

Para você,
Desejo todas as cores desta vida.
Todas as alegrias que puder sorrir.
Todas as músicas que puder emocionar.

Para você neste novo ano,
Desejo que os amigos sejam mais cúmplices,
Que sua família esteja mais unida,
Que sua vida seja mais bem vivida.

Gostaria de lhe desejar tantas coisas.
Mas nada seria suficiente...

Então, desejo apenas que você tenha muitos desejos.
Desejos grandes e que eles possam te mover a cada minuto,
ao rumo da sua FELICIDADE!!
(Carlos Drummond de Andrade)

sexta-feira, 28 de dezembro de 2007

RECEITA DE ANO NOVO

(Carlos Drummond de Andrade)

Para você ganhar belíssimo Ano Novo...

Não precisa fazer lista de boas
intenções para arquivá-las
na Gaveta.

Não precisa chorar de arrependimento
pelas besteiras consumadas nem
parvamente acreditar que por decreto

da esperança a partir de Janeiro
as coisas mudem e seja claridade,
recompensa, justiça entre os homens

e as nações, liberdade com cheiro e
gosto de pão matinal, direitos respeitados,
começando pelo direito augusto de viver.

Para ganhar um ano-novo que mereça
este nome, você, meu caro, tem de
merecê-lo, tem de fazê-lo novo,

Eu sei que não é fácil mas tente,
experimente, consciente.

É dentro de você que o Ano Novo
cochila e espera desde sempre.

Um maravilhoso Ano Novo para você !

terça-feira, 25 de dezembro de 2007

SIMBOLOGIA


Desde a sua origem, o Natal é carregado de magia. Gritos, cantigas, forma rudimentar do culto, um rito de cunho teatral, o drama litúrgico ou religioso medieval ganha modificações no decorrer dos séculos. Dos templos, a teatralização ganha praças, largos, ruas e vielas, carros ambulantes, autos sacramentais e natalinos. Os dignatários da Igreja promoviam espetáculos. Na evolução da história está a compreensão de todos os símbolos de Natal.

Árvore - Representa a vida renovada, o nascimento de Jesus. O pinheiro foi escolhido por suas folhas sempre verdes, cheias de vida. Essa tradição surgiu na Alemanha, no século 16. As famílias germânicas enfeitavam suas árvores com papel colorido, frutas e doces. Somente no século 19, com a vinda dos imigrantes à América, é que o costume espalhou-se pelo mundo.

Presentes - Simbolizam as ofertas dos três reis magos. Hábito anterior ao nascimento de Cristo. Os romanos celebrava a Saturnália em 17 de dezembro com troca de presentes. O Ano Novo romano tinha distribuição de mimos para crianças pobres.

Velas - Representam a boa vontade. No passado europeu, apareciam nas janelas, indicando que os moradores estavam receptivos.

Estrela - No topo do pinheiro, representa a esperança dos reis-magos em encontrar o filho de Deus. A estrela guia os orientou até o estábulo onde nasceu Jesus.

Cartões - Surgiram na Inglaterra em 1843, criados por John C. Horsley que o deu a Henry Cole, amigo que sugeriu fazer cartas rápidas para felicitar conjuntamente os familiares.

Comidas típicas - O simbolismo que o alimento tem na mesa vem das sociedades antigas que passavam fome e encontravam na carne, o mais importante prato, uma forma de reverenciar a Deus.

Presépio - Reproduz o nascimento de Jesus. O primeiro a armar um presépio foi São Francisco do Assis, em 1223. As ordens religiosas se incumbiram de divulgar o presépio, a aristocracia investiu em montagens grandiosas e o povo assumiu a tarefa de continuar com o ritual.

Origem do Natal


Universal, abrangente, calorosa ­ assim é a festa de Natal, que envolve a todos. Uma das mais coloridas celebrações da humanidade, é a maior festa da cristandade, da civilização surgida do cristianismo no Ocidente. Época em que toda a fantasia é permitida. Não há quem consiga ignorar a data por mais que conteste a importação norte-americana nos simbolismos: neve, Papai Noel vestido com roupa de lã e botas, castanhas, trenós, renas.
Até os antinatalinos acabam em concessões, um presentinho aqui, outro acolá. Uma estrelinha de belém na porta de casa, uma luzinha, um mimo para marcar a celebração da vida, que é o autêntico sentido da festa. Independente do consumismo, tão marcante, o Natal mantém símbolos sagrados do dom, do mistério e da gratuidade.
Na origem, as comemorações festivas do ciclo natalino vêm da distante Idade Média, quando a Igreja Católica introduziu o Natal em substituição a uma festa mais antiga do Império Romano, a festa do deus Mitra, que anunciava a volta do Sol em pleno inverno do Hemisfério Norte. A adoração a Mitra, divindade persa que se aliou ao sol para obter calor e luz em benefício das plantas, foi introduzida em Roma no último século antes de Cristo, tornando-se uma das religiões mais populares do Império.
A data conhecida pelos primeiros cristãos foi fixada pelo Papa Júlio 1º para o nascimento de Jesus Cristo como uma forma de atrair o interesse da população. Pouco a pouco o sentido cristão modelou e reinterpretou o Natal na forma e intenção. Conta a Bíblia que um anjo anunciou para Maria que ela daria a luz a Jesus, o filho de Deus. Na véspera do nascimento, o casal viajou de Nazaré para Belém, chegando na noite de Natal. Como não encontraram lugar para dormir, eles tiveram de ficar no estábulo de uma estalagem. E ali mesmo, entre bois e cabras, Jesus nasceu, sendo enrolado com panos e deitado em uma manjedoura.
Pastores que estavam próximos com seus rebanhos foram avisados por um anjo e visitaram o bebê. Três reis magos que viajavam há dias seguindo a estrela guia igualmente encontraram o lugar e ofereceram presentes ao menino: ouro, mirra e incenso. No retorno, espalharam a notícia de que havia nascido o filho de Deus.

Natal na Pintura

1. Virgem com o Menino,S. Bartolomeu e Santo Antão
http://www.arteducacao.pro.br/homenagem/Natal/natal.htm#
2. Virgem com o Menino,S. Bartolomeu e Santo Antão
http://www.arteducacao.pro.br/homenagem/Natal/natal.htm#
3. Adoração dos Magos, Vasco Fernandes.
http://www.arteducacao.pro.br/homenagem/Natal/natal.htm#

sábado, 8 de dezembro de 2007

DEFICIÊNCIAS - Mario Quintana

(escritor gaúcho 30/07/1906 -05/05/1994) .

"Deficiente" é aquele que não consegue modificar sua vida, aceitando as imposições de outras pessoas ou da sociedade em que vive, sem ter consciência de que é dono do seu destino.
"Louco" é quem não procura ser feliz com o que possui.
"Cego" é aquele que não vê seu próximo morrer de frio, de fome, de miséria, e só tem olhos para seus míseros problemas e pequenas dores.
"Surdo" é aquele que não tem tempo de ouvir um desabafo de um amigo, ou o apelo de um irmão. Pois está sempre apressado para o trabalho e quer garantir seus tostões no fim do mês.
"Mudo" é aquele que não consegue falar o que sente e se esconde por trás da máscara da hipocrisia.
"Paralítico" é quem não consegue andar na direção daqueles que precisam de sua ajuda.
"Diabético" é quem não consegue ser doce.
"Anão" é quem não sabe deixar o amor crescer. E, finalmente, a pior das deficiências é ser miserável, pois:
"Miseráveis" são todos que não conseguem falar com Deus.






" A amizade é um amor que nunca morre. "

quinta-feira, 6 de dezembro de 2007

Convívio famíliar

As últimas décadas têm proporcionado modificações revolucionárias na vida do ser humano. Avanços tecnológicos que resultaram em maior conforto e possibilitaram o acesso entre os lugares, através dos meios de transporte e a comunicação. Eletrodomésticos a preços acessíveis, entre outros. Contudo, nota-se, em particular, uma transformação expressiva, uma vez que se trata de gênero: o feminino.

Com as conquistas realizadas pela mulher na vida profissional, houve uma enorme modificação quanto as ocupações de vaga de trabalho e posição hierárquica dentro das organizações. Onde existiam apenas homens anteriormente, hoje se encontram mulheres disputando e executando diversas atividades. Isto aconteceu a duras penas, com muito sacrifício. Transpor as barreiras machistas - e ainda existem várias – não foi tarefa fácil. A luta tem valido a pena e serve de estímulo para continuar a trajetória desta evolução.

Todavia, para tudo nesta vida, há que se pagar um preço. Em nosso conhecimento comum é sabido sobre a importância da figura materna na criação dos filhos, é próprio da natureza. O papel fundamental da mãe para com a sua criança nos primeiros anos de vida, período em que ocorre a estruturação da personalidade infantil. Também importante é o papel do pai, com o seu amor e a inserção dos limites alguns anos depois. Vários aspectos são construídos neste rico período, tais como as relações afetivas e o processo de educação. Elementos fundamentais para o porvir, na vida adulta da criança. Sem eles, torna-se precária a formação. Aprende-se no contato diário, no relacionamento comum.

Portanto, se somente pela quantidade e qualidade de convívio é possível se constituir uma boa formação de afetos e educação, que servirão de modelo e hábito para o resto da vida, e as pessoas que cuidam das crianças encontram-se trabalhando, ou seja, longe deste contato necessário, o que resulta disso?

A esta pergunta, pondera-se sob diversos ângulos, levando a algumas reflexões que podem servir de base a constantes questionamentos acerca dos problemas observados com o passar dos anos, repetindo-se e aumentando a estatística das dificuldades nos relacionamentos humanos.

Exemplos comuns a respeito deste convívio familiar insuficiente são a precária formação afetiva, resultando em algumas dificuldades conjugais na vida adulta da criança. Uma vez que ela não formou este tipo de relacionamento em seu período de estruturação, encontra enorme obstáculo em oferecer algo que não possui, pelo menos o suficiente. Leva o casamento a um grau de frieza e decorrente distanciamento, ocasionando em alguns casos a separação. Outro fato é o comportamento conseqüente da falta de educação em muitos lares. Pouco convívio, baixa construção educacional e de valores. Soma-se isto à falsa idéia de que limites traumatizam e pesam mais do que as regras, e então, vê-se uma tremenda falta de educação por todos os lados.

Estas considerações que enraízam alguns dos problemas de relacionamento humano fazem voltar a atenção novamente para a evolução feminina, e é possível advogar na defesa daquilo que já foi conquistado: a independência, sem radicalizar através da opção involutiva, e ademais, seria impossível retroceder pela própria natureza das progressões. Busca-se, então, uma alternativa de equilíbrio, a justa medida.

Para trazer este novo dado às dificuldades existentes, faz-se necessária a contextualização política e econômica da época em que vivemos. Ou seja, com tanto desemprego existente, medo freqüente de entrar em contato com a miséria (esta, tão bem expressa pela mídia diariamente), a necessidade de se aumentar a carga horária de trabalho para criar maior rendimento, que cada vez mais, alcança menos, pergunta-se: Como tratar da questão da quantidade e qualidade do convívio familiar? Soa como um absurdo, mas não o é!

O ser humano, em seu caos social, ver-se-á obrigado a modificar os rumos e estabelecer novas medidas para atender a reorganização que deverá ocorrer dentro de algum tempo: a redistribuição de carga horária na vida profissional. Esta proposta é amplamente descrita por pensadores como Domenico De Masi, pensador italiano contemporâneo, que sugere a distribuição do trabalho em períodos de quatro horas diárias para cada profissional, aumentando o número de vagas e abrindo as portas para tantos desempregados. Isto gerará maior tempo disponível para as pessoas, que poderão usufruir conforme o seu interesse. Inclui-se aqui, o precioso tempo necessário às relações familiares de base; aquelas da formação no período infantil. Maior quantidade e qualidade no convívio, ampliando as chances de uma boa estruturação da personalidade para uma vida posterior melhor. E isto, sem ser preciso lançar mão de artifícios radicais, contando com o bom senso e a inevitável reorganização social.

Não é um empreendimento fácil. Muita discussão deverá acontecer até que os primeiros passos sejam dados nesta direção. Refletir desde já a respeito pode colaborar ainda mais, viabilizando o lado preventivo da questão, e não permitindo que se chegue ao limite insuportável, como ocorrem as grandes mudanças, via de regra.

Sabe-se que muitas mães expressam claramente o desejo de dispor de tempo para se dedicar as suas famílias. E que a falta de perspectiva em transformações neste campo levam à ansiedade e frustração a respeito do futuro.

Outra reflexão, ainda importante, é sobre a qualidade de vida e do trabalho doravante. Que profissionais as organizações terão sob o seu teto? Pessoas cada vez mais estressadas pela desenfreada corrida por horas a mais no trabalho? Que gastos, privados e governamentais, suportarão a demanda por tratamentos, cada vez maiores, para as doenças que têm consumido a saúde do ser humano? Quem suportará o crescimento dos filhos, observando a instalação gradativa de doenças até então de adultos, por conta do frenesi das horas e dos péssimos hábitos facilmente adquiridos?

Hoje a criação é distante, fugindo ao importante convívio do significado do termo família, do grego: famulo, que quer dizer servo, aquele que serve. Servir é a base. É preciso estar disponível.

Quem sabe, em breve ocorram as transformações essenciais para que o ser humano continue a sua evolução, pagando o preço justo por ela, e não a pesada taxa que o consome. É pela reflexão constante, vontade e atitude que se tornará possível contribuir, individualmente para o conjunto familiar, formando assim, uma comunidade melhor. Repensar é olhar os fatos atuais, as possibilidades e o resultado entre ambos.


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*Armando Correa de Siqueira Neto é psicólogo, consultor, conferencista, escritor e autor de artigos publicados em livro, revistas especializadas, jornais e sites. Desenvolve treinamentos. É mestrando em Liderança.

selfpsicologia@mogi.com.br

A dislexia em sala de aula

1. CONCEITO DE LEITURA

São quatro as habilidades da linguagem verbal: a leitura, a escrita, a fala e a escuta. Destas, a leitura é a habilidade lingüística mais difícil e complexa. A leitura é dos um processo de aquisição da lectoescrita e, como tal, compreende duas operações fundamentais: a decodificação e a compreensão.

A decodificação é a capacidade que temos como escritores ou leitores ou aprendentes de uma língua para identificarmos um signo gráfico por um nome ou por um som. Esta capacidade ou competência lingüística consiste no reconhecimento das letras ou signos gráficos e na tradução dos signos gráficos para a linguagem oral ou para outro sistema de signo.

A aprendizagem da decodificação se consegue através do conhecimento do alfabeto e da leitura oral ou transcrição de um texto. Conhecer o alfabeto não significa apenas o reconhecimento das letras, e sim, entendermos a evolução da escrita como: a) a pictográfica (desenho figurativo), a ideográfica (representação de idéias sem indicação dos sons das palavras) e a fonográfica (representação dos sons das palavras). Toda palavra tem uma origem, uma motivação e, a rigor, não é absolutamente arbitrária como quis Ferdinand de Saussure, em seu Curso de Lingüística geral.

O agá, por exemplo, nas línguas neolatinas, como o português, o espanhol, o italiano e o francês, pode indicar um fonema mudo, mas traduz, por sua vez, uma origem semítica heth. O grego, por exemplo, usou a letra h para representar a vogal longa eta. Por isso, toda palavra, em português, iniciada pela letra h (hoje, homem, história etc), é de origem grega.

A compreensão é a captação do sentido ou conteúdo das mensagens escritas. Sua aprendizagem se dá através do domínio progressivo de textos escritos cada vez mais complexos (ALLIENDE: 1987, p.27)

2. AS FUNÇÕES ESSENCIAIS DA LEITURA

São três os verbos que definem as funções essenciais da leitura: a)transformar, b) compreender e c) julgar.

Transformar, em leitura, se dá quando o leitor converte a linguagem escrita em linguagem oral.

Compreender se efetiva quando o leitor consegue captar ou dá sentido ao conteúdo da mensagem.

Julgar é capacidade que o leitor tem de analisar o valor da mensagem no contexto social.

3. OS PROCESSOS DA CAPACIDADE LEITORA

O enfoque da Psicolingüística, ramo interdisciplinar da Psicologia Cognitiva e da Lingüística Aplicada, considera a leitura como uma habilidade complexa, na qual intervém uma série de processos cognitivo-lingüísticos de distintos níveis, cujo início é um estímulo visual e cujo final deve ser a decodificação do mesmo e sua compreensão. Refiro-me aos processos básicos e superiores da habilidade leitora.

Os processos básicos da leitura são também chamados de “processos de nível inferior”. Sua finalidade é o reconhecimento e a compreensão das palavras. Dentro destes se encontram a decodificação e a compreensão de palavras.

Os processos superiores ou de nível superior têm por finalidade a compreensão de textos.

Os dois processos, isto é, os básicos e os superiores, devem ser considerados no ensino do português e na aprendizagem da lectoescrita uma vez que funcionam de modo interativo ou interdependente.

Os processos básicos, isto é, que se voltam à decodificação e à compreensão de palavras, são particularmente importantes nas primeiras etapas da aprendizagem da leitura (ou leitura inicial na educação infantil) e devem ser automatizados ou bem assimilados no primeiro ciclo do ensino fundamental (até a quarta série), já que um déficit em algum deles atua como um nó de gravata que impede o desenvolvimento dos processos superiores de compreensão leitora.

Processos preceptivos - O leitor atinge a decodificação através dos processos perceptivos e dos processos léxicos. Os processos perceptivos referem-se à percepção visual.

A percepção visual permite a extração de informações sobre cosias, lugares e eventos do mundo visível. Portanto, a percepção é um processo para aquisição de informações e conhecimentos, guardando estreita relação com a memória de longo prazo (MLP) e a cognição.

A percepção é uma das primeiras atividades que tomam parte do processo leitor e a forma mais específica da percepção visual. Aprendemos a ler com o poder do olhar.

Ao nos engajarmos na leitura, fixamos, inicialmente, nossa olhada nos símbolos impressos, isto é, nas palavras e nos seus grafemas, e se não analisamos em profundidade o que realmente ocorre pode parecer-nos que os olhos percebem as palavras de uma linha ou de um texto de forma contínua. Ler, a rigor, não é apenas ler as palavras nas linhas, na sua dimensão linear sintagmática, mas ler as entrelinhas, o subjacente, o paradigmático, o ausente, o dito não explícito no texto.

Essa operação visual se dá assim: os olhos se movimentam da esquerda para direita mediante uns saltos rápidos denominados “movimentos oculares sacádicos”. No percurso da leitura, vamos alternando fixações e movimentos sacádicos e somente podemos ler e compreender o que lemos nos períodos em que nos fixamos, em cerca de um quarto de segundo (com a faixa média sendo de cerca de 150-500ms com uma média de 200-250 ms) nos olhos no texto. (ELLIS: 1995, p.17).

A duração e amplitude das fixações e a direção dos movimentos sacádicos não variam arbitrariamente, e sim, dependem de: a) as características do texto, b) a maturidade dos processos cognitivos do leitor, c) a visão, d) a fadiga ocular, e) a iluminação, f) a distância olho-texto, g) a postura do corpo e h) o tipo de letra e papel.

Processos léxicos – Depois da análise perceptiva, o passo seguinte é chegarmos ao significado das palavras que, no ensino da língua materna, é, realmente, o que interessa aos professores, à escola e à família e aos próprios alunos. Se nosso objetivo é também a leitura em voz alta, então, devemos trabalhar a soletração, a entonação ou a pronúncia escorreita das palavras.

Dois são os caminhos que existem para chegarmos ao reconhecimento das palavras e extrairmos o significado das mesmas. Falaremos pois de duas rotas que nos ajudam no reconhecimento das palavras: a) a fonológica ou indireta ou também chamada via indireta (VI) e b) a rota visual ou léxica ou via direta (VD).

A rota fonológica - A rota fonológica é a que a nos permite a leitura de textos, segmentando-os, por força da metalinguagem, em seus componentes (parágrafos, períodos, orações, frases, sintagmas, palavras, morfemas), como também em sílabas ou em sons da fala (fonemas).

Baseia-se a rota fonológica na segmentação fonológica das palavras escritas, por meio da qual o leitor tem a alcança a chamada consciência fonológica. A rota fonológica é o guia prático para o alfabetizador que trabalha, em sala de aula, com o chamado método fônico de leitura.

A rota fonológica consiste em descriminar os sons correspondentes a cada uma das letras ou grafemas que compõem a palavra. Esta rota permite, na realidade, o reconhecer das letras das palavras e sua transformação em sons. Através desta via, portanto, podemos, como leitores hábeis, ler palavras pouco freqüentes (por exemplo, pneumoultramicroscopicossilicovulcanoconiótico, a maior palavra na língua portuguesa), desconhecidas e inclusive as pseudopalavras (MARTINS: 2002).

A rota fonológica é a via, pois, para se atingir a consciência fonológica, através da qual se pode ler todas as palavras em língua portuguesa, já que nosso idioma neolatino é alfabético e transparente, isto é, não tem palavras, a rigor, irregulares, impossíveis de serem lidas (exceto os estrangeirismos)

Podemos, enfim, resumir os objetivos da via fonológica no processo de aquisição da leitura:

- Identificar as letras através da análise visual

- Recuperar os sons mediante a consciência fonológica

- Pronunciar os sons da fala fazendo uso do léxico auditivo

- Chegar ao significado de cada palavra no léxico interno (vocabulário)

A via fonológica é mais lenta que a via direta já que o processo requerido é muito mais extenso até chegarmos a reconhecer a palavra, no entanto, não é menos importante e, inclusive, podemos afirmar que os estágios iniciais da aprendizagem da leitura dependem da consciência fonológica.

A rota visual ou direta ou léxica - É uma rota global e muito rápida já que nos permite o reconhecimento global da palavra e sua pronunciação imediata sem necessidade de analisar os signos ( significante e significado) que a compõem.

Os passos que temos na leitura de palavras através da via direta são:

- Analisar globalmente a palavra escrita: análise visual

- Ativar as notações léxicas

- Chegar ao significado no léxico interno (vocabulário)

- Recuperar a pronunciação no caso de leitura em voz alta

O modelo de leitura através da rota direta permite explicar a facilidade que temos para reconhecer as palavras cuja imagem visual temos visto com muita freqüência. Isto é, através desta rota podemos ler palavras que nos são familiares a nível de escrita. A rota direta é base para a prática do método global de leitura (também chamado construtivista)

Em qualquer caso, ambas as vias não são excludentes entre si As rotas fonológica e global são necessárias e coexistem na leitura hábil. À medida que a habilidade leitora se desenvolve, intensificamos as estratégias da via direta ou léxica ou ambas ao mesmo tempo.

4. FATORES QUE INFLUENCIAM A DISLEXIA

Os padrões de movimentos oculares são fundamentais para a leitura eficiente.

São as fixações nos movimentos oculares que garantem que o leitor possa extrair informações visuais do texto. No entanto, algumas palavras são fixadas por um tempo maior que outras.

Por que isso ocorre? Existiriam assim fatores que influenciam ou determinam ou afetam a facilidade ou dificuldade do reconhecimento de palavras, a saber: a) familiaridade, b) freqüência, c0 idade da aquisição, d) repetição, e) significado e contexto, f) Regularidade de correspondência entre ortografia-som ou grafema-fonema e g) Interações. (ELLIS: 1995, p.19-28)

5. A DISLEXIA COMO FRACASSO INESPERADO

A dislexia, segundo Jean Dubois et alii (1993, p.197), é um defeito de aprendizagem da leitura caracterizado por dificuldades na correspondência entre símbolos gráficos, às vezes mal reconhecidos, e fonemas, muitas vezes, mal identificados.

A dislexia, segundo o lingüista, interessa de modo preponderante tanto à discriminação fonética quanto ao reconhecimento dos signos gráficos ou à transformação dos signos escritos em signos verbais.

A dislexia, para a Lingüística, assim, não é uma doença, mas um fracasso inesperado (defeito) na aprendizagem da leitura, sendo, pois, uma síndrome de origem lingüística.

As causas ou a etiologia da síndrome disléxica são de diversas ordens e dependem do enfoque ou análise do investigador. Aqui, tendemos a nos apoiar em aportes da análise lingüística e cognitiva ou simplesmente da Psicolingüística.

Muitas das causas da dislexia resultam de estudos comparativos entre disléxicos e bons leitores. Podemos indicar as seguintes: a) Hipótese de déficit perceptivo, b) Hipótese de déficit fonológico e c) Hipótese de déficit na memória.

Atualmente os investigadores na área de Psicolingüística aplicada à educação escolar, apresentam a hipótese de déficit fonológico como a que justificaria, por exemplo, o aparecimento de disléxicos com confusão espacial e articulatória.

Desse modo, são considerados sintomas da dislexia relativos à leitura e escrita os seguintes erros:

a) erros por confusões na proximidade especial: a) confusão de letras simétricas, b) confusão por rotação e c) inversão de sílabas

b) Confusões por proximidade articulatória e seqüelas de distúrbios de fala: a) confusões por proximidade articulatória, b) omissões de grafemas e c) omissões de sílabas.

As características lingüísticas, envolvendo as habilidades de leitura e escrita, mais marcantes das crianças disléxicas, são:

A acumulação e persistência de seus erros de soletração ao ler e de ortografia ao escrever

Confusão entre letras, sílabas ou palavras com diferenças sutis de grafia: a-o; c-o; e-c; f-t; h-n; i-j; m-n; v-u etc

Confusão entre letras, sílabas ou palavras com grafia similar, mas com diferente orientação no espaço: b-d; b-p; d-b; d-p; d-q; n-u; w-m; a-e

Confusão entre letras que possuem um ponto de articulação comum, e, cujos sons são acusticamente próximos: d-t; j-x;c-g;m-b-p; v-f

Inversões parciais ou totais de silabas ou palavras: me-em; sol-los; som-mos; sal-las; pal-pla

Segundo Mabel Condemarín (1987, p.23), outras perturbações da aprendizagem podem acompanhar os disléxicos,:

Alterações na memória

Alterações na memória de séries e seqüências

Orientação direita-esquerda

Linguagem escrita

Dificuldades em matemática

Confusão com relação às tarefas escolares

Pobreza de vocabulário

Escassez de conhecimentos prévios (memória de longo prazo)

Agora, uma pergunta pode advir: Quais as causas ou fatores de ordem pedagógico-lingüística que favorecem a aparição das dislexias?

De modo geral, indicaremos causas de ordem pedagógica, a começar por:

Atuação de docente não qualificado para o ensino da língua materna (por exemplo, um professor ou professora sem formação superior na área de magistério escolar ou sem formação pedagógica, em nível médio, que desconheça a fonologia aplicada à alfabetização ou conhecimentos lingüísticos e metalingüísticos aplicados aos processos de leitura e escrita)

Crianças com tendência à inversão

Crianças com deficiência de memória de curto prazo

Crianças com dificuldades na discriminação de fonemas (vogais e consoantes)

Vocabulário pobre

Alterações na relação figura-fundo

Conflitos emocionais

O meio social

As crianças com dislalia

Crianças com lesão cerebral

No caso da criança em idade escolar, a Psicolingüística define a dislexia como um fracasso inesperado na aprendizagem da leitura (dislexia), da escrita (disgrafia) e da ortografia(disortografia) na idade prevista em que essas habilidades já devem ser automatizadas. É o que se denomina de dislexia de desenvolvimento.

No caso de adulto, tais dificuldades quando ocorrem depois de um acidente vascular cerebral (AVC) ou traumatismo cerebral, dizemos que se trata de dislexia adquirida.

A dislexia, como dificuldade de aprendizagem, verificada na educação escolar, é um distúrbio de leitura e de escrita que ocorre na educação infantil e no ensino fundamental. Em geral, a criança tem dificuldade em aprender a ler e escrever e, especialmente, em escrever corretamente sem erros de ortografia, mesmo tendo o Quociente de Inteligência (Q.I) acima da média.

Além do Q.I acima da média, o psicólogo Jesus Nicasio García, assinala que devem ser excluídas do diagnóstico do transtorno da leitura as crianças com deficiência mental, com escolarização escassa ou inadequada e com déficits auditivos ou visuais.(1998, p.144).

Tomando por base a proposta de Mabel Condemarín (l989, p. 55), a dificuldade de aprendizagem relacionadas com a linguagem (leitura, escrita e ortografia), pode ser inicial e informalmente (um diagnóstico mais preciso deve ser feito e confirmado por neurolingüista) diagnosticadao pelo professor de língua materna, com formação na área de Letras e com habilitação em Pedagogia, que pode vir a realizar uma medição da velocidade da leitura da criança, utilizando, para tanto, a seguinte ficha de observação, com as seguintes questões a serem prontamente respondidas:

A criança movimenta os lábios ou murmura ao ler?

A criança movimenta a cabeça ao longo da linha?

Sua leitura silenciosa é mais rápida que a oral ou mantém o mesmo ritmo de velocidade?

A criança segue a linha com o dedo?

A criança faz excessivas fixações do olho ao longo da linha impressa?

A criança demonstra excessiva tensão ao ler?

A criança efetua excessivos retrocessos da vista ao ler?

Para o exame dos dois últimos pontos, é recomendável que o professor coloque um espelho do lado posto da página que a criança lê. O professor coloca-se atrás e nessa posição pode olhar no espelho os movimentos dos olhos da criança.

O cloze, que consiste em pedir à criança para completar certas palavras omitidas no texto, pode ser importante, também, aliado para o professor de língua materna determinar o nível de compreensibilidade do material de leitura (ALLIENDE: 1987, p.144)

6. Bibliografia e webliografia básicas:

1. ALLIENDE, Felipe, CONDEMARÍN, Mabel. (1987). Leitura: teoria, avaliação e desenvolvimento. Tradução de José Cláudio de Almeida Abreu. Porto Alegre: Artes Médicas.

2. CONDEMARÍN, Mabel, BLOMQUIST, Marlys. (1989). Dislexia; manual de leitura corretiva. 3ª ed. Tradução de Ana Maria Netto Machado. Porto Alegre: Artes Médicas.

3. DUBOIS, Jean et alii. (1993). Dicionário de lingüística. SP: Cultrix.

4. ELLIS, Andrew W. (1995). Leitura, escrita e dislexia: uma análise cognitiva. 2 ed. Tradução de Dayse Batista. Porto Alegre: Artes Médicas.

5. GARCÍA, Jesus Nicasio. (1998). Manual de dificuldades de aprendizagem: linguagem, leitura, escrita e matemática. Tradução de Jussara Haubert Rodrigues. Porto Alegre: Artes Médicas.

6. HOUT, Anne Van, SESTIENNE, Francoise. (2001). Dislexias: descrição, avaliação, explicação e tratamento. 2ª ed. Tradução de Cláudia Schilling. Porto Alegre: Artes Médicas.

7. MARTINS, Vicente. (2002). Lingüística Aplicada às dificuldades de aprendizagem relacionadas com a linguagem: dislexia, disgrafia e disortografia. Disponível na Internet: http://sites.uol.com.br/vicente.martins/

Vicente Martins é professor da Universidade Estadual Vale do Acaraú(UVA), de Sobral, Estado do Ceará, Brasil.

terça-feira, 4 de dezembro de 2007

Distúrbio da Conduta

O distúrbio da conduta caracteriza-se por um comportamento repetidamente destrutivo.
Vários tipos de distúrbio da conduta já foram identificados. As crianças e os adolescentes com um distúrbio da conduta agressivo solitário são egoístas, não se relacionam bem com as outras pessoas e não têm sentimento de culpa. As crianças e os adolescentes com um distúrbio da conduta grupal são leais aos seus pares (p.ex., uma gangue), freqüentemente às custas de terceiros. Algumas crianças e adolescentes apresentam sinais tanto de um distúrbio da conduta agressivo solitário quanto de um distúrbio da conduta grupal. Aqueles com um distúrbio desafiante de oposição apresentam uma conduta negativa, desafiadora e raivosa, mas sem realmente violar os direitos dos outros. Essas crianças e adolescentes conhecem a diferença entre o certo e o errado, sentindo-se culpadas quando fazem algo muito errado. Embora não seja no início um distúrbio da conduta, o distúrbio desafiante de oposição freqüentemente evolui para um distúrbio da conduta discreto.

Como ajudá-lo.
A psicoterapia pode ajudar a melhorar a auto-estima e o controle da criança ou do adolescente, o que por sua vez melhora o seu comportamento. Dar lições de moral e ameaçar não funciona. Freqüentemente, o tratamento mais eficaz consiste em separar a criança do ambiente nocivo e submetê-la a uma disciplina rígida.

DIA NACIONAL DA CONSCIÊNCIA NEGRA

O  Dia Nacional da Consciência Negra  foi instituído em 2003 para ser incluída no calendário escolar como efeméride, porém foi introduzida...